A expansão da energia solar e eólica no Brasil começa a exigir uma discussão mais específica sobre as condições de segurança nos canteiros de obras. O alerta foi destacado pela Fundacentro durante o seminário “Energias Renováveis e Segurança no Trabalho”, realizado em 3 de setembro de 2026. A instituição divulgou, em 16 de setembro, os principais pontos do debate sobre os riscos enfrentados por trabalhadores na construção de parques solares e eólicos.
Segundo a Fundacentro, as exigências atualmente aplicáveis estão distribuídas entre diferentes Normas Regulamentadoras e não contemplam integralmente a complexidade dos grandes empreendimentos de geração renovável. A avaliação coloca em evidência a necessidade de aperfeiçoar as regras de segurança e saúde no trabalho para acompanhar a transformação do setor de infraestrutura.
Por que essas obras exigem protocolos específicos
Parques solares e eólicos reúnem etapas de construção que envolvem riscos variados em uma mesma operação. A instalação de painéis fotovoltaicos e aerogeradores depende da movimentação de estruturas, transporte de componentes, operação de máquinas, montagem de equipamentos e execução de serviços elétricos. Em muitos casos, essas atividades ocorrem simultaneamente e em áreas extensas, com exposição às condições climáticas.
O trabalho em altura é outro ponto de atenção, especialmente na montagem de torres, equipamentos e estruturas associadas aos aerogeradores. Já nos parques solares, a instalação de módulos, suportes e sistemas de conexão exige organização do canteiro, controle de circulação e cuidados durante o manuseio de materiais. A combinação entre grandes dimensões, distâncias internas e diferentes frentes de serviço aumenta a importância do planejamento preventivo.
Também precisam ser considerados os riscos relacionados à eletricidade, à movimentação de cargas e ao uso de veículos e máquinas pesadas. Em empreendimentos desse porte, a segurança não depende apenas de equipamentos de proteção individual, mas de procedimentos integrados, capacitação, sinalização, supervisão e análise das condições reais encontradas no local da obra.
Como as normas existentes se aplicam
A Norma Regulamentadora nº 10 estabelece referências para a segurança em instalações e serviços com eletricidade. Por isso, seus requisitos são relevantes em etapas que envolvem redes, subestações, sistemas de conexão e demais componentes elétricos dos parques de geração. A aplicação das medidas deve considerar as características do projeto e as atividades realizadas por cada equipe.
As obras também estão inseridas no conjunto de normas voltadas à indústria da construção, incluindo a NR-18, além de outras regras relacionadas a máquinas, equipamentos, trabalho em altura e organização das atividades. O Ministério do Trabalho e Emprego mantém a relação das Normas Regulamentadoras vigentes. No entanto, a existência de requisitos separados pode não responder sozinha à integração de riscos típica dos grandes parques solares e eólicos.
Crescimento da geração aumenta pressão sobre os canteiros
A discussão ocorre em um momento de expansão das fontes renováveis na matriz elétrica brasileira. De acordo com a Empresa de Pesquisa Energética, a geração solar fotovoltaica cresceu 24,7% em 2025, enquanto a geração eólica avançou 8,2%. Juntas, as duas fontes responderam por 26,4% da geração total de eletricidade do país naquele ano.
Esse avanço envolve mais do que a entrada em operação de novas usinas. A expansão demanda obras de acesso, fundações, linhas de transmissão, subestações, montagem de estruturas e instalação de equipamentos de grande porte. Cada empreendimento pode reunir empresas contratadas, trabalhadores de diferentes especialidades e frentes de trabalho distribuídas por grandes áreas, o que torna essencial a coordenação entre os responsáveis.
Para a Fundacentro, o setor ainda carece de materiais práticos que traduzam os riscos identificados nos canteiros e orientem a prevenção no dia a dia. A instituição informou que desenvolve projetos específicos sobre segurança e saúde na construção de parques eólicos e solares. A iniciativa busca aproximar o conhecimento técnico das necessidades encontradas por profissionais, empresas e trabalhadores.
Qualificação e planejamento como prioridades
O debate indica que a segurança deve ser considerada desde o planejamento do empreendimento, e não apenas durante a execução. Projetos, cronogramas, contratação de equipes, definição dos acessos e organização das áreas de armazenamento precisam incorporar os riscos relacionados a cada fase da obra. Essa abordagem também pode facilitar a identificação de interferências entre atividades e reduzir improvisações no canteiro.
Com a continuidade da expansão solar e eólica no Brasil, a qualificação das equipes e a atualização das orientações de segurança tendem a ganhar importância. O desafio apontado pela Fundacentro é transformar regras gerais em procedimentos capazes de responder às condições específicas dos parques renováveis, fortalecendo a prevenção sem desconsiderar a diversidade e a escala dessas obras.
